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Autodisciplina - Não é sobre as emoções é sobre o pensamento

Tanto que se fala de disciplina e hábitos que poderíamos estar dias, meses, se não anos, a falar deste tema. Há muitas teorias a encher livros, workshops e cursos com muita informação interessante, mas teremos tempo e disponibilidade para tanto do que se diz sobre o tema?





Eu falo na primeira pessoa porque este é um assunto que exploro e que me desperta muita curiosidade. Primeiro porque não sou uma expert no tema, e depois porque recebo muitas solicitações em consulta, onde o tema vai sempre parar à autodisciplina – como deixar velhos hábitos e criar outros.

Há coisas tão enraizadas em nós que nem vislumbramos a possibilidade de as mudar, como se isso não dependesse de cada um. E também, porque a maior parte de nós não teve esta instrução na escola, nem em “casa” porque é algo como quasi-adquirido através das etapas de crescimento e de aprendizagem. Na realidade prática sabemos que não é assim.

Tentei reunir algumas ideias de alguns autores e psicólogos que falam sobre o tema, uns mais explicitamente que outros, e que pode ajudar a dar o primeiro passo para a mudança.


Então, o que se entende por autodisciplina?

A autodisciplina é mais do que apenas uma palavra da moda, é uma habilidade fundamental que molda o nosso comportamento, influencia o nosso sucesso e determina o nosso bem-estar geral.

A autodisciplina é o controle consciente que nos impulsiona em direção a resultados bem-sucedidos, superando obstáculos ou impedimentos. Não se trata apenas de força de vontade ou de resistir à tentação, trata-se de agir alinhado com os nossos pensamentos e intenções, independentemente dos nossos sentimentos. Seja acordar cedo, seguir uma dieta ou manter uma rotina consistente de exercícios, a autodisciplina desempenha um papel fundamental para alcançar os nossos objetivos.


Mudanças de identidade e formação de hábitos

James Clear, no seu famoso livro “Hábitos Atómicos”, enfatiza o poder dos hábitos baseados na identidade. Ele ilustra como a nossa autopercepção molda o nosso comportamento. Por exemplo, quando alguém deixa de fumar e numa investida a retomar o hábito este responde “Não, obrigado, estou a tentar deixar…”, significa que ainda se identifica como fumador; em vez disso poderia responder “Não, obrigado, não sou fumador.”, desassociando-se do seu hábito anterior, ocorrendo uma profunda transformação. Esta mudança de identidade influencia ações consistentes e reforça a autodisciplina.


Compromisso e Consistência

O psicólogo Robert Cialdini no seu livro “Influência: a psicologia da persuasão”, destaca a tendência humana de agir de forma consistente com decisões passadas. Quando nos comprometemos com um caminho específico, sentimo-nos compelidos a manter esse compromisso. Tirar partido desse princípio pode aumentar a autodisciplina. Por exemplo, imagine-se como um atleta – alguém que incorpora disciplina, resiliência e consistência. Essa mudança de mentalidade pode fazer maravilhas em diversas áreas da vida, especialmente na criação de novos hábitos.


Implementando autodisciplina - passos práticos


1. Estabelecer metas grandes e audaciosas: definir metas específicas e ambiciosas que ressoem com cada um. Quer seja acordar cedo ou dizer não a lanches pouco saudáveis, a clareza sobre os seus objetivos alimenta a autodisciplina.


2. Criar pequenos hábitos e começar aos poucos: pequenos hábitos – fazer uma postura de ioga ou beber um copo de água – acumulam-se com o tempo. Os hábitos contornam a necessidade de motivação constante e criam mudanças duradouras. Criar novos hábitos requer autodisciplina inicial porque os comportamentos ainda não são automáticos. Em vez de nos fixarmos na perfeição, o foco é na totalidade de eventos positivos. À medida que um comportamento se torna mais automático, a autodisciplina melhora. A consistência é mais importante do que sequências perfeitas.


3. Abraçar a sua identidade: retirar o foco dos objetivos e considerar a identidade que quer incorporar. Se é um atleta, um escritor ou um entusiasta da saúde…? Alinhar as ações com a identidade e a autodisciplina virá.


4. Escrever o seu objetivo: colocar um post-it no computador ou na secretária, lembrando-o do seu objetivo ou identidade desejada. Ver regularmente esse lembrete reforça o comprometimento e proporciona clareza nas ações.


5. O poder da meditação: a meditação não envolve apenas relaxamento, mas é uma ferramenta poderosa na aquisição da autodisciplina. Cientificamente, esta ajuda a regular as emoções e melhora a tomada de decisões. A prática regular de meditação fortalece a capacidade de permanecer disciplinado, especialmente em momentos desafiadores.


6. Lembrarmo-nos da razão por trás da autodisciplina: seja saúde, crescimento pessoal ou sucesso profissional, o crucial é conectar as ações a um propósito.


A autodisciplina nem sempre significa sentirmo-nos motivados ou confortáveis. E eis que surge a resistência. O foco será agir – fazer o planeado, independentemente de como nos sentimos. Cada vez que lidamos com o desconforto – a tarefa desafiadora, é onde acontece o crescimento.

No caso da consistência, esta torna-se mais fácil quando nos lembramos diariamente do motivo pelo qual nos estamos a esforçar.

Em resumo, a autodisciplina não envolve força bruta, trata-se de escolhas intencionais alinhadas com os seus pensamentos e identidade.


NOTA: Antes de qualquer iniciar qualquer mudança de rotina ou antes de introduzir um novo hábito, priorizar sempre as necessidades biológicas: nutrição, sono e exercícios.





Raquel Caldeira

Psicóloga Clínica



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